terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Canção da tarde no campo


Caminho do campo verde
estrada depois de estrada.
Cerca de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.
Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.
Meus pés vão pisando a terra
Que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!
Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a tarde é minha.
Os meus passos no caminho
são como os passos da lua;
vou chegando, vai fugindo,
minha alma é a sombra da tua.
Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.
De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto,
meu peito é puro deserto.
Subo monte, desço monte.
Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Para ser feliz...

Art by Kurt Halsey

Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz
com uma outra pessoa,
você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.

Percebe também que aquela pessoa que você ama
(ou acha que te ama) e que não
quer nada com você, definitivamente, não é
a pessoa da sua vida.

Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e,
principalmente, a gostar de quem
também gosta de você.

O segredo é não correr atrás das borboletas...
É cuidar do jardim para que elas venham até você.

No final das contas, você vai achar não quem você
estava procurando, mas
quem estava procurando por você!

Sugestão

Foto por Uncle Phooey - Flickr

Sede assim — qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Vida simples

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milénios.
E o risco brevíssimo - que foi? passou! - de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia a dentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.
- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

sábado, 26 de dezembro de 2009

War / No More Trouble

...

(Nós Não precisamos) Não, não precisamos (de mais problemas) De mais problemas !
(Nós Não precisamos de mais problemas.).

(Não precisamos de mais problemas)
Faça amor e não guerra ! Pois não precisamos de problemas
O que precisamos é de amor (amor)
Para guiar e proteger nós mesmos (mesmos)
Se você se considera "melhor" que o resto (amor)
Ajude os fracos se você é forte agora (forte)

O que precisamos é de amor. (amor)
Para guiar e proteger nós mesmos (mesmos)
Olhe para baixo se você está "por cima" (por cima)
Ajude os fracos se você é forte agora (forte)
Fale felicidade ! (Triste o suficiente sem suas aflições)
Eu mendigo pra você falar de amor (Triste o suficiente sem seus inimigos.)

(Playing for Change - Song Around The World)

...

Me gusta tanto, tanto leer!

http://www.megustaleer.com/

Viver

Fui à floresta, porque queria viver profundamente...
...e sugar a essência da vida!
Eliminar tudo o que não era vida...
E não, ao morrer, descobrir, que eu não vivi.

Lua adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A água vence

No confronto entre o rio e a pedra,
o rio sempre vence - não por causa da força,
mas pela persistência.

Olhe para si


A paz vem de dentro de você mesmo.
Não a busque ao redor.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A eterna estação


"Na primavera, centenas de flores;
no outono, a lua.
No verão, as brisas refrescantes;
no inverno, a neve.
Se você não deixar que preocupações inúteis
Pesem no seu coração, sua vida inteira será uma
Estação eternamente boa"
Poema Zen

O que me tranquiliza

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

sábado, 19 de dezembro de 2009

L'opera Imaginaire



Un bel dì, vedremo
levarsi un fil di fumo sull’estremo
confin del mare.
E poi la nave appare.
Poi la nave bianca
entra nel porto, romba il suo saluto.
Vedi? È venuto!
Io non gli scendo incontro. Io no. Mi metto
là sul ciglio del colle e aspetto, e aspetto
gran tempo e non mi pesa,
la lunga attesa.
E… uscito dalla folla cittadina
un uomo, un picciol punto
s’avvia per la collina.
Chi sarà? chi sarà?
E come sarà giunto
che dirà? che dirà?
Chiamerà Butterfly dalla lontana.
Io senza dar risposta
me ne starò nascosta
un po’ per celia e un po’ per non morire
al primo incontro, ed egli alquanto in pena
chiamerà, chiamerà:
Piccina mogliettina
olezzo di verbena,
i nomi che mi dava al suo venire.
[a Suzuki]
Tutto questo avverrà, te lo prometto.
Tienti la tua paura, io con sicura
fede l’aspetto.

O Velho e a Flor

Por céus e mares eu andei,
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber
O que é o amor.

Ninguém sabia me dizer,
Eu já queria até morrer
Quando um velhinho
Com uma flor assim falou:

O amor é o carinho,
É o espinho que não se vê em cada flor.
É a vida quando
Chega sangrando aberta
em pétalas de amor.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Trilogia das Cores

A liberdade é azul ou apenas Azul, como no título original, Kieslowski toma como ponto de partida a tragédia e os dez minutos iniciais já denotam a desgraça. Num acidente de carro, Julie (Juliette Binoche) perde o marido e a filha, após a tragédia a personagem decide-se livrar de tudo que lhe prende ao passado, porém, impossível se livrar de tudo, eis o ponto filosófico do roteiro, aquela liberdade utópica é possível?

Em “A igualdade é branca” a personagem central é Carol (Zbiniew Zamachowski) ele é polonês e não fala francês, é apaixonado pela sua mulher, Dominique (Julie Delpy), que o surpreende com um pedido de divórcio, Carol é julgado na França sem falar uma palavra sequer em francês, mesmo em tom de comédia o filme já dá o tom logo de cara, como um estrangeiro é julgado, obrigado a assinar uma separação sem sequer falar a língua nativa, sem um interprete, onde reside a igualdade na sociedade? Carol resolve retornar a sua cidade natal, volta a trabalhar com o irmão na profissão de cabeleireiro e planeja uma inusitada vingança.

No Vermelho ou “A fraternidade é vermelha”, Valentine (Irene Jacob) leva uma vida normal, faz curso universitário, no filme não é citado qual curso, ganha o seu dinheiro como modelo, tem um namorado onipresente no filme, toda a sua tranqüilidade e normalidade serão quebradas quando atropela uma cadela pastor-alemão, na coleira da cadela há o endereço de sua casa, Valentine vai então até lá, quando adentra a casa do dono, o Juiz, senhor aposentado que tem um estranho hobby, com um aparelho de escuta, consegue escutar as conversas telefônicas de seus vizinhos, paralelamente há a história de um jovem que estuda pra ser juiz e tenta a sorte no amor, porém nada fácil e linear na visão de Kieslowski.

Nos três filmes, as personagens terão as suas vidas transformadas por efeito do acaso e entrarão em conflitos correlacionados com os temas/ lemas de cada cor, no caso de Julie, que acredita estar se libertando, mas, o marido ao morrer deixa uma opera inacabada, obra encomendada pelo parlamento europeu, se vê refém da música, o som está dentro dela, Carol quer a igualdade na vingança para com a sua mulher e Valentine vê todos os seus valores morais decaírem quando resolve adentrar no mundo do Juiz, e uma das coisas mais interessante dos três filmes, as três histórias coexistem no mesmo tempo, vemos personagens dos filmes transitarem entre si, coexistem num mesmo espaço, mas não se relacionam, existem e não existem ao mesmo tempo.

Autor: Marcelo Hailer

Significado das Cores

As cores podem ter influência psicológica sobre o ser humano, algumas estimulam, outras tranqüilizam, pois são captadas pela visão e transmitidas para o cérebro e conseqüentemente refletem impulsos e reações para o corpo.

O preto permite a auto-análise, a introspecção, pode significar também dignidade, está associado ao mistério.

O branco remete a paz, sinceridade, pureza, verdade, inocência, calma.

O verde simboliza esperança, perseverança, calma, vigor e juventude.

O vermelho ativa e estimula, significa elegância, paixão, conquista, requinte e liderança.

A cor amarela desperta, traz leveza, descontração, otimismo. Simboliza criatividade, juventude e alegria.

A cor azul produz segurança, compreensão. Propicia saúde emocional e simboliza lealdade, confiança e tranqüilidade.

O laranja além de significar movimento, espontaneidade, tolerância, gentileza, é uma cor estimulante.

O cinza promove equilíbrio e estabilidade.

O rosa significa romance, sensualidade, beleza.

A cor violeta significa sinceridade, dignidade, prosperidade, respeito.

O marrom associa-se a estabilidade, constância, significa responsabilidade e maturidade.

Fonte: http://www.mundoeducacao.com.br/artes/significado-das-cores.htm

sábado, 12 de dezembro de 2009

O ponto (Gardi Hutter)

Gardi Hutter, a palhaça suíça que tem quase 30 anos de carreira, apresenta no Brasil seu mais novo espetáculo solo intitulado "O Ponto", após turnê em toda a Europa em novembro deste ano. A montagem inédita chega ao país para prestigiar o público brasileiro com temporada nos espaços da CAIXA Cultural Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo.

Neste espetáculo, Joana - personalidade clown consagrada na peça Joana D'arpo - é um "ponto" que vive para o teatro e também sob o teatro. Trata-se da memória viva dos atores durante suas apresentações: uma vez esquecida a fala, cabe ao "ponto", discretamente, sussurrar o trecho que se segue.

Tendo constituído seu lar embaixo de um palco antigo, Joana é uma trabalhadora apaixonada, que tem a vantagem de quase não precisar sair da cama para cumprir a sua função. Apesar de passar os seus dias na sombra, a vida de Joana não deixa de ter o seu encanto. Falta luz, mas não diversão. No subsolo, ela aprendeu a se divertir de uma forma propriamente sua.

Olhando para o mundo através de uma estreita abertura no chão, ela sabe toda a peça e conhece cada um dos intérpretes. Ela reconhece os atores somente pela voz e pelo cheiro dos pés. Porém, ninguém a conhece. A sua existência só é recordada quando a fala é esquecida. Quando um dos atores se perde no texto, a voz do ponto mostra o caminho a seguir.

Um dia, o velho teatro é substituído por outro mais moderno. Mas ninguém se lembra de informar a apontadora do que estava por acontecer.

A artista

Gardi Hutter formou-se como atriz pela Academia de Artes Dramáticas em Zurique, na Suíça. Já recebeu 11 prêmios culturais, fez turnês em 24 países com mais de 2.800 apresentações e é referência na arte da palhaçaria internacional. Esta é a quinta vez que se apresenta no Brasil.

Trabalhou durante três anos em colaboração com o CRT - Centro di Ricerca per il Teatro of Milan (Itália). Participou de uma temporada do Circo Nacional da Suíça, o Circo Knie 2000, tendo trabalhado com grandes mestres da arte clown como Nani Colombaioni e Ferruccio Cainero.

Fonte: http://www.geledes.org.br/agenda-cultural/rio-de-janeiro-o-ponto-de-gardi-hutter.html

Pensamentos...

"Quem, em nome da liberdade,

renuncia a ser aquilo que devia ser,

já se matou em vida: é um suicida de pé

A sua existência consistirá numa perpétua

fuga da única realidade que era possível."

Ser feliz ...

"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar

Irritado algumas vezes, mas não esqueço

De que a minha vida é a maior empresa do mundo.

E que posso evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver,

Apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos

Problemas e tornar-se um autor da própria história."

Fernão Capelo Gaivota

Superfície azul do céu,
asas em curva de dores,
Fernão Capelo levanta e voa,
porque voar é importante,
mais que comer e viver.

Caro é pensar diferente,
viver em infinitos,
voar dias inteiros
só aprendendo a voar.

Gaivota que se preza
tem de sentir as estrelas,
analisar paraísos,
conquistar múltiplos espaços.

Gaivota que se preza
precisa buscar perfeição.
Importante é olhar de frente,
em uma, em dez, cem mil vidas.

Para Fernão nada é limite:
voa, treina, aprende,
paira sobre o comum do viver.

Se o destino é o infinito,
o caminho é nas alturas!

Desde que você o deseje, pode ir a qualquer lugar e a qualquer momento...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Sonhos de Uma noite de Verão

Há quem diga
que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem diga nem todas,
só as de verão.
Mas no fundo
isso não tem muita importância.
O que interessa mesmo
não são as noites em si,
são os sonhos.
Sonhos que o homem sonha sempre.
Em todos os lugares,
em todas as épocas do ano,
dormindo ou acordado.

Nuvens - Pato Fú

leve pensamento diz
por muito tempo não consigo esperar
quase sempre ser feliz
é um alento ou uma falta de ar
capaz de me fazer
um pouco acreditar
que o sonho mais perfeito
pode se realizar
quando passeio nas nuvens
tudo parece igual
as sombras são as medidas
de tantas chances perdidas
sem demora então
é só acreditar
que o sonho mais perfeito
pode se realizar

Trecho de Waking Life, filme de Richard Linklater

“Nessa ponte,” adverte Lorca, “A vida não é um sonho. Cuidado e cuidado e cuidado”. Tantos crêem que porque o “então” ocorreu, o “agora” não está ocorrendo. Eu não comentei? O “uau” contínuo que está se dando nesse mesmo instante. Somos todos co-autores desta exuberância dançante na qual até as nossas incapacidades se divertem. Nós somos os autores de nós mesmos, criando um romance de Dostoiévski, estrelando palhaços. Isso em que estamos envolvidos, que chamamos de mundo, é uma oportunidade de demostrar como a alienação pode ser fascinante. A vida é uma questão de um milagre formado de momentos perplexos por estarem na presença uns dos outros. O mundo é uma prova pra testar se podemos nos elevar as experiência diretas. A visão é um teste para saber se podemos ver além dela. A matéria é um teste para nossa curiosidade. A dúvida é uma prova para a nossa vitalidade. Thomas Mann escreveu que preferiria participar da vida que escrever. Giacometti foi atropelado por um carro, certa vez. Ele lembra-se de ter caído em um desmaio lúcido, um prazer repentino, ao perceber que finalmente algo estava lhe acontecendo. Assume-se que não se pode compreender a vida e viver ao mesmo tempo. Não concordo inteiramente. Ou seja, não exatamente discordo. Eu diria que a vida compreendida é a vida vivida. Mas os paradoxos me perturbam. Posso aprender a amar e fazer amor com os paradoxos que me perturbam. E em noites românticas do eu, saio pra dançar salsa com a minha confusão. Antes de sair flutuando não se esqueça, ou seja, lembre-se.. Por que lembrar é muito mais uma atividade psicótica do que esquecer. Lorca no mesmo poema disse que o lagarto morderá os que não sonham. E, quando se percebe, que se é um personagem sonhado no sonho de outra pessoa, isso é consciência de si.

A Arte de Ser Feliz (Cecília Meireles)

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela,
uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas,
e outros, finalmente,
que é preciso aprender a olhar,
para poder vê-las assim.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Ponto-e-vírgula

Comecei no jornalismo trabalhando como copidesque — uma função que já deve ter sido substituída por uma tecla de computador. Naquele tempo, você podia começar como estagiário, sem diploma. Quanto tempo faz isso? Basta dizer que a manchete na Zero Hora do dia seguinte ao da minha estréia foi “Castelo hesita em cassar Lacerda”. E a manchete saiu com um terrível erro de ortografia. “Exita” em vez de “hesita”. Na minha casa, duas certezas conflitantes — a de que eu era analfabeto e a de que já começaria no jornalismo fazendo as manchetes da primeira página se chocarem, criando o pânico. Mas eu era inocente. Eu tenho conseguido me manter inocente de grandes pecados ortográficos e gramaticais desde então, pelo menos se você não for um fanático sintático. Vez por outra, um leitor escandalizado me chama a atenção por alguma barbaridade que eu prefiro chamar de informalidade, para não chamar de distração ou ignorância mesmo. Afinal, se a gente não pode tomar liberdades com a própria língua... E nenhum pronome fora de lugar justifica a perda de civilidade.

Mas tenho um temor e uma frustração. Jamais usei ponto-e-vírgula. Já usei “outrossim”, acho que já usei até “deveras” e vivo cometendo advérbios, mas nunca me animei a usar ponto-e-vírgula. Tenho um respeito reverencial por quem sabe usar ponto-e-vírgula e uma admiração ainda maior por quem não sabe e usa assim mesmo, sabendo que poucos terão autoridade suficiente para desafiá-lo. Além de conhecimento e audácia, me falta convicção: ainda não escrevi um texto que merecesse ponto-e-vírgula. Um dia o escreverei e então tirarei o ponto-e-vírgula do estojo com o maior cuidado e com a devida solenidade e o colocarei, assim, provavelmente no lugar errado, mas quem se importará?

Luis Fernando Verissimo. Zero Hora, 18/4/1999.