sexta-feira, 1 de maio de 2009

Como me tornei um estupido (Martin Page)


A ignorância é um dom para Antoine, personagem principal da sátira de Martin Page, Como me tornei estúpido. Para o jovem estudante de aramaico, filho de pai birmanês e mãe bretã, a inteligência e a consciência crítica se transformam em empecilhos para alcançar a felicidade na sociedade atual. Por isso, o anti-herói criado pelo autor francês decide investir na idiotice como forma de sobrevivência: do alcoolismo ao antidepressivo, ele tenta todos os meios possíveis para se tornar uma nulidade. O livro é um caso extremo e bem-humorado de rebeldia contra uma sociedade que exige a estupidez como passaporte e oferece a massificação como recompensa. Como me tornei estúpido faz parte do Safra XXI, selo lançado em 2004 pela editora Rocco com edição gráfica diferenciada e proposta ousada de lançar autores jovens e talentosos.

Decidido a parar de sofrer por causa de uma consciência que o impede de aceitar as injustiças do mundo, Antoine tenta sem sucesso virar alcoólatra, suicidar-se e até fazer uma cirurgia para retirar uma parte do cérebro. As tentativas frustradas do jovem protagonista são descritas com fina ironia e imagens nonsenses que beiram o surrealismo. Mas a redenção de Antoine vem com o emprego numa corretora de ações de um ex-colega de escola, que junto com o Felizac, antidepressivo receitado pelo seu médico boa-praça, são o antídoto perfeito contra a inteligência e a consciência crítica do rapaz.
O protagonista passa então a freqüentar o mundo dos bem-sucedidos executivos financeiros de Paris, fica milionário de uma hora para outra, e tenta de todas as maneiras se adaptar à sua nova condição – entre outras coisas isso significa comprar, comprar, comprar, enquanto a sua consciência dorme. Mas as peripécias de Antoine não duram muito. Entre um intervalo e outro de Felizac, o herói de Page fica vulnerável ao seu próprio veneno, ou seja, seu cérebro ainda dá sinais de estar vivo e sua dificuldade de sentir-se um membro efetivo da sociedade vem à tona. Até que o "resgate" de fato acontece, de uma forma nada convencional, para concluir, depois de uma série de experiências que beiram o surreal, a história engendrada pela imaginação fértil do autor.
Como me tornei estúpido é uma agradável surpresa com sotaque parisiense, mas levanta questões universais. O livro faz uma crítica afiada ao consumismo e ao pretenso livre-arbítrio que torna todos semelhantes na sociedade de massa. Martin Page possui uma escrita saborosa, recheada de citações e referências, em especial ao cinema. Influência confessa do surrealista Boris Vian, comparado pela crítica a Tchekov e Jane Auster, considerado por outros uma versão atual de Voltaire e seu Cândido, o otimista, a estréia do jovem francês é um sopro de humor e vitalidade na prosa francesa atual.

Nenhum comentário: